4. ESPECIAIS LONDRES 2012. 15.8.12

1. COMO VIRAR O JOGO
2. OS OLHEIROS DO RIO
3. "AGORA O MUNDO OLHA PARA NS"
4. O REDENTOR ZANETTI

1. COMO VIRAR O JOGO

Diante dos resultados abaixo das expectativas da delegao brasileira em Londres, o que pode ser feito para melhorar o desempenho dos atletas do Pas nos Jogos do Rio-2016
Por Amauri Segalla e Luiz Fernando S, enviados especiais a Londres 

Por mais que milagres aconteam neste fim de semana, com vitrias nas provas finais da Olimpada, a delegao brasileira deixa os Jogos de Londres sob uma constatao: o Brasil est atrasado em sua preparao esportiva para a Rio-2016. O esperado crescimento do nmero de medalhas no veio e,  exceo de algumas surpresas, o Pas continua a depender das modalidades de sempre  jud, vlei, vlei de praia. Pior ainda: alguns esportes que pareciam caminhar para uma ascenso sem volta deixaram impresso negativa em Londres. A natao caiu de rendimento e no trouxe um ttulo sequer. Depois do ouro de Maurren Maggi em Pequim, o atletismo ensaiou uma retomada, mas ela no aconteceu. Apesar das conquistas brilhantes de jovens como Sarah Menezes, no jud, e Arthur Zanetti, na ginstica, foi a velha gerao que trouxe mais medalhas, como os quase quarentes Robert Scheidt, da vela, e Emanuel, do vlei de praia, alm dos veteranos do vlei. Uma aps outra, os torcedores brasileiros viram grandes esperanas fracassar. Campe mundial do salto com vara, Fabiana Murer novamente decepcionou em uma Olimpada. Diego Hyplito caiu mais uma vez. A julgar pelos resultados de Londres,  possvel virar o jogo em apenas quatro anos?
 
Para o Comit Olmpico Brasileiro, sim. J comeamos a formar atletas de ponta em modalidades que trazem muitas medalhas, como boxe e ginstica, e nunca estivemos to bem posicionados em competies de base, diz Marcus Vincius Freire, superintendente-executivo do COB. Uma nova gerao vai explodir em 2016. Para o americano Steve Roush, ex-diretor de alto rendimento do Comit Olmpico de seu pas e contratado pelo COB para prestar consultoria ao esporte de alto nvel brasileiro, o fundamental  acelerar intercmbios internacionais e trazer gente capacitada de fora. O handebol do Brasil fez isso e  um exemplo de rpida evoluo, diz Roush. Seu raciocnio  reforado por resultados. O boxe brasileiro  liderado por um cubano (leia quadro), o basquete masculino por um argentino, o levantamento de peso por um romeno. Todas essas modalidades deram um imenso salto de qualidade nos ltimos anos.

VICE - Aos 39 anos, Emanuel ( esq.) se despediu dos Jogos Olmpicos com uma medalha de prata no vlei de praia com o parceiro Allison
 
Apesar dos pequenos avanos, o Brasil falhou em diversos aspectos. At a tarde da sexta-feira 10, o Pas no estava entre os 20 primeiros colocados no quadro de medalhas. Se no avanar muitos postos em relao  23 colocao obtida em Pequim, ter quebrado uma regra. Os pases-sede de uma Olimpada comeam a evoluir nas edies anteriores dos Jogos. O Reino Unido foi 10 em Atenas-2004 e 4 em Pequim-2008. Agora, em casa, quebrou seu recorde de medalhas e aparece na 3 colocao. O Brasil, ao contrrio, corre at o risco de regredir em Londres. Em Pequim-2008, o Pas chegou a 41 finais e a meta era superar essa marca. s vsperas do encerramento da Olimpada, os atletas brasileiros tinham alcanado apenas 33 finais. Significa, portanto, que no estamos produzindo talentos suficientes para um projeto de vitrias no futuro.

Para a Rio-2016, o objetivo do COB  ficar entre os dez primeiros colocados no quadro de medalhas. Essa meta provavelmente s ser alcanada se o Pas faturar no mnimo oito ouros. De onde eles viro? O exemplo britnico mostra como, no esporte, resultados no aparecem por acaso. Leva tempo e planejamento. Para o Rio, em 2016, comeamos o nosso trabalho h dois anos e temos 120 pessoas envolvidas nisso, diz Chelsea Warr, chefe do programa de desenvolvimento de atletas da UK Sports, rgo estatal que centraliza o investimento no esporte de elite. A chuva de medalhas dos britnicos  fruto de um processo meticuloso. Identificamos talentos acompanhando competies de base, diz Chelsea. Ali, enxergamos quem tem potencial e elaboramos um perfil do atleta.  isso que vai definir o que fazer e de que maneira.

Vai dar tempo de o Brasil fazer algo parecido? Para esportes como remo, canoagem e ciclismo, conseguimos produzir campees em quatro anos, diz a britnica. Ela cita o exemplo da remadora Helen Grover, que comeou no programa Gigantes do Esporte apenas em 2008 e, mesmo assim, faturou o ouro em Londres. Mas a maioria dos esportes exige um ciclo mais longo, de oito a dez anos. A China, que rivaliza com os Estados Unidos pelo posto de maior potncia do esporte mundial, tambm  um exemplo a ser seguido. Em 1998, portanto uma dcada antes de sediar os Jogos, os chineses instituram o maior programa de popularizao esportivo da histria. Mais de 200 mil jovens foram selecionados para treinar, em perodo integral, em 1,8 mil centros esportivos espalhados pelo pas. Desse contingente saram os campees olmpicos de Pequim e de Londres.

No Brasil, projetos amplos como esses esto muito longe de ser realidade e os talentos quase sempre so casos isolados e no resultado de uma poltica institucional. Para o ex-judoca Flvio Canto, criador do Instituto Reao, projeto que ensina jud a crianas carentes no Rio, um dos problemas  o desleixo com que praticamente todas as modalidades,  exceo do futebol, so tratadas no processo de educao. O calcanhar de Aquiles do Brasil  o esporte na escola, que  muito fraco, diz o judoca. Quando melhorarmos isso, teremos uma gerao melhor. Uma das grandes decepes brasileiras na Olimpada, o atletismo, que j produziu nomes como Joaquim Cruz e Adhemar Ferreira da Silva, vai lanar, no ano que vem, um projeto de introduo ao atletismo em 30 mil escolas pblicas do Brasil, para crianas de 6 a 10 anos. No nosso caso, o problema  que os talentos chegam tarde demais, diz Martinho Nobre dos Santos, chefe da delegao do atletismo em Londres. Primeiro o garoto tenta jogar futebol e, se no der certo, talvez ele encontre uma janela no atletismo. No Brasil, nunca o atletismo  a primeira opo.  hora de comear a ser, ou corremos o risco de dar vexame em 2016.


2. OS OLHEIROS DO RIO

Quem so e o que fazem os cerca de 200 observadores brasileiros que esto em Londres para conhecer de perto a organizao de uma olimpada
Por Amauri Segalla, enviado especial a Londres

 STAFF - Maria Silvia Marques (abaixo), e Claudia Escarlate entre Roberto Ainbinder (acima) e Bernardo Carvalho: trabalho at de madrugada

So trs horas da madrugada da quarta-feira 1 e uma comitiva de 20 pessoas visita as instalaes do Parque Olmpico de Londres. Alm de representantes da organizao dos Jogos e do Comit Olmpico Internacional, esto no grupo alguns brasileiros. Entre eles, a arquiteta Cludia Escarlate, 50 anos, funcionria da Empresa Olmpica Municipal do Rio (EOM) e coordenadora do projeto do Parque Olmpico da Rio-2016. O que estariam fazendo os notvagos quela altura? Trabalhando,  claro, diz Cludia, cujas olheiras no escondem a dureza de seu ofcio. Para entender como funciona o sistema de logstica do complexo (entrega de mercadorias, entrada de funcionrios, controle do fluxo de visitantes), ela perdeu a noite de sono  mas certamente ganhou horas de aprendizado sobre como promover um evento da dimenso de uma Olimpada. Esse trabalho de observao est sendo fundamental para que o Rio conhea melhor os desafios que tem pela frente, afirma a arquiteta. Cludia est entre os cerca de 200 observadores brasileiros enviados a Londres para conhecer de perto tudo o que envolve a organizao de uma Olimpada. Alm de especialistas da EOM, empresa que vai cuidar das obras de infraestrutura, esto na Inglaterra olheiros do Comit Organizador da Rio-2016, responsvel pela operao dos Jogos, e empregados de companhias de engenharia e servios. O consrcio formado pelas construtoras Norberto Odebrecht, Andrade Gutierrez e Carvalho Hosken (constitudo para a construo do Parque Olmpico carioca) mandou dez profissionais a Londres, que tero a incumbncia de montar um relatrio com os pontos positivos e negativos das arenas, e a Embratel manteve seis tcnicos para acompanhar os sistemas de comunicao da Olimpada britnica. Cada evento trouxe novas informaes, lies e dicas que podero ser utilizadas ou adaptadas para a realidade carioca, disse  ISTO a economista Maria Silvia Bastos Marques, presidente da EOM, que visitou dez arenas londrinas. Na noite da quinta-feira 9, na final do vlei de praia masculino, o governador do Rio, Srgio Cabral, tambm deu seu pitaco como observador. Nossa arena vai ser muito mais bonita, disse. Aqui no tem praia, no tem Copacabana Palace.
 
O trabalho de profissionais como a arquiteta Cludia Escarlate tem o desafio de analisar a organizao da Olimpada do ponto de vista tcnico. Sob esse aspecto, ela trar valiosas lies. Percebi que as alamedas para circulao dos torcedores no Parque Olmpico precisam ser amplas, pois se trata do principal espao de convivncia entre os turistas de diversos pases, diz Cludia, que tambm ficou impressionada com o sistema de segurana. Segundo ela, seis mil cmeras vigiam, 24 horas por dia, os 200 hectares do Parque Olmpico. Apenas para monitorar a movimentao de pessoas pelo sistema de vdeo, a organizao dos Jogos de Londres contratou 120 pessoas. O arquiteto Roberto Ainbider, diretor de projetos da EOM, tambm visitou as arenas como se fosse um visitante comum. Mediu, por exemplo, a distncia entre as cadeiras (pequena, por sinal, especialmente no estdio de atletismo), observou a localizao de banheiros e estudou o sistema de ar-condicionado dos ginsios esportivos. S observando na prtica  que voc ter condies de avaliar se aquilo serve para o Rio. Ainbider ficou especialmente impressionado com as grandes distncias percorridas a p pelos torcedores. Para chegar no local das provas de remo, voc deixa o sistema de transporte e caminha quase meia hora, diz. Estvamos preocupados em fazer com que os turistas andassem demais nos Jogos no Rio, mas percebemos em Londres que isso  absolutamente necessrio. A rota passa a ser uma rea de festa, uma oportunidade para conhecer torcedores de diversos pases.
 
Os brasileiros esto analisando tudo: da logstica das arenas ao esquema de segurana
 
As longas caminhadas, porm, s so possveis se os roteiros estiverem bem sinalizados. Em Londres, a organizao escolheu um chocante rosa para indicar a localizao das arenas esportivas. No Rio, teremos um problema adicional com as placas, que  a questo da lngua, diz o observador Bernardo Carvalho, diretor da EOM, que ficou com a misso de analisar a estrutura de comunicao dos Jogos. Elas devero ser maiores, pois viro escritas em portugus e ingls. O idioma no pode ser uma barreira que atrapalhe a vida dos torcedores. Para os Jogos do Rio, Carvalho diz que o projeto Rio Criana Global vai selecionar estudantes para o aprendizado do ingls. Garanto que todos os voluntrios do Rio vo falar ingls com fluncia, diz o executivo. Outro ponto observado foi a boa vontade de todos os envolvidos no que os organizadores chamam de famlia olmpica. Voluntrios, policiais e at o pessoal das Foras Armadas foram orientados para aceitar brincadeiras dos torcedores. Os voluntrios que carregam megafones receberam aulas para animar a torcida. Isso ajuda a construir uma imagem positiva do pas e certamente pensaremos em algo parecido para o Rio.
 
Muita coisa funcionou em Londres, mas a organizao dos Jogos tambm falhou em diversos aspectos (leia quadro). Houve falhas no sistema de vendas pela internet e na distribuio dos ingressos, por exemplo. Diretor-geral do Comit Organizador dos Jogos do Rio, Leonardo Gryner diz que o modelo de comercializao de bilhetes dos britnicos no ser adotado no Rio. Em Londres, um dos problemas  que uma pessoa compra um bilhete para ver um jogo e automaticamente tem o direito de ver outro, afirma Gryner. Muitas vezes, essa pessoa no vai ver dois jogos. O segundo, ento, ficar vazio. Para os brasileiros, Londres serviu, entre outras coisas, para mostrar como fazer uma Olimpada melhor. Tomara que as lies tenham sido realmente assimiladas.


3. "AGORA O MUNDO OLHA PARA NS"

Eduardo Paes recebe a bandeira olmpica do prefeito de Londres e diz que o prximo desafio  conectar a populao  Olimpada de 2016
Por Amauri Segalla e Luiz Fernando S, enviados especiais a Londres

 O prefeito do Rio em Londres: "Vai se intensificar a fiscalizao com nosso trabalho"
 
O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, desembarcou na manh da sexta-feira 10 em Londres ansioso, orgulhoso e emocionado. No domingo, ele estaria no centro da cerimnia de encerramento da Olimpada de 2012. Ao receber a bandeira olmpica das mos do prefeito de Londres, Boris Johnson, diante de uma audincia de mais de um bilho de pessoas, ele sabia que o mundo todo agora se volta para sua cidade e acompanhar cada passo da organizao da Rio 2016. Seu primeiro compromisso na capital inglesa foi receber ISTO para uma entrevista, em que falou dos desafios e das oportunidades que tem pela frente.
 
ISTO  O que muda na preparao da cidade para receber a Olimpada com o encerramento dos Jogos de Londres?
 Eduardo Paes  O que muda  justamente o fato de que os olhos do mundo estaro nos acompanhando. Vai se intensificar a fiscalizao sobre o nosso trabalho. E, mais importante, agora  a hora de mobilizarmos a cidade, j que passamos a ser agora oficialmente a cidade olmpica. A grande mudana no nosso planejamento  ver como a gente conecta as pessoas com esse evento fantstico.
 
ISTO   possvel fazer esse trabalho junto  populao em meio ao processo eleitoral?
 Paes  A eleio, sem dvida, atrapalha. Vamos fazer uma cerimnia de chegada da bandeira olmpica ao Rio, depois vou lev-la  presidenta Dilma e a alguns pontos da cidade. Mas terei que limitar os eventos para no ser acusado de estar usando a bandeira para fazer campanha eleitoral. O ideal seria que pudssemos us-la de forma mais intensa.
 
ISTO  Ento esse envolvimento da populao s poder ser feito mais a fundo pelo futuro prefeito eleito?
 Paes  Antes disso, j elaboramos uma rotina para que se crie o clima olmpico na cidade. Vamos lanar uma msica oficial da Olimpada, composta pelo Arlindo Cruz. Teremos um cerimonial para a bandeira, com uma guarda especial para ela, que  um smbolo importante para mobilizar a cidade.
 
ISTO  O sr. acredita que, nessa fase de preparao, o Rio ser visto com mais desconfiana do que Londres foi?
 Paes  Sem dvida seremos mais patrulhados. Mas a  que est nosso desafio. Esse pode ser o ponto de virada na maneira como o Brasil  percebido. Hoje as grandes obras j esto em execuo, tudo tem seu caminho definido, empresas contratadas, licitaes feitas. Na Copa a gente perdeu um pouco essa oportunidade, em virtude das confuses que aconteceram. Mas tambm a Fifa  um ambiente complexo. O Comit Olmpico Internacional tem um ambiente mais organizado. As grandes questes j equacionamos. Estamos na fase de discutir detalhes.
 
ISTO  A partir do que os observadores da prefeitura enxergaram em Londres, qual ser o maior desafio para que a Olimpada do Rio acontea nos mesmos padres de eficincia?
 Paes  A questo da mobilidade no Rio  um desafio, porque ainda temos de implementar, concluir o metr e os BRTs (sistema de transporte rpido sobre rodas). Para ns  mais difcil porque Londres j dispunha de uma rede eficiente. Eles qualificaram essa rede e operaram bem. Ns estamos construindo a rede e ainda vamos ter, muito em cima da hora, de aprender a oper-la.
 
ISTO  O sr. teme que possa haver um gargalo nessa rea?
 Paes  A cidade j demonstrou que sabe fazer e conviver com grandes eventos. Mas  claro que temos que chegar num nvel de sofisticao maior.
 
ISTO  A segurana no Rio  uma questo importante para o COI?
 Paes  No  uma questo que tenha um tratamento especial. Eles esto muito focados na questo esportiva, porque viram que demos, desde o princpio, o tom de priorizar o interesse da cidade.
 
ISTO  Como foi a sua relao com o prefeito de Londres, Boris Johnson? 
Paes  Estive com ele poucas vezes. As realidades so muito diferentes. Os poderes e as atribuies do prefeito de Londres so bem menores do que os do prefeito de uma cidade brasileira. Ele teve a exposio de um anfitrio, mas na prtica teve menos interferncia no resultado final do que haver no Brasil. Mesmo o transporte no  uma atribuio direta dele. Ainda assim, acho que ele demonstrou muito talento. E tambm enfrentou uma eleio no meio da preparao olmpica.  


4. O REDENTOR ZANETTI

Ao conquistar a medalha de ouro indita, o atleta paulista de 22 anos inaugura uma nova era para a ginstica brasileira
Por Amauri Segalla e Frederic Jean (foto), enviados especiais a Londres, e Rodrigo Cardoso

 XTASE - Zanetti exibe sua medalha dourada ttica do elemento surpresa e preparao psicolgica diria
 
Assim que o locutor oficial da espetacular arena North Greenwich anunciou o ginasta paulista Arthur Nabarrete Zanetti, 22 anos, como o novo campeo olmpico, ouviu-se um longo Ohhhhhhhhhh! varrendo as arquibancadas. Afinal, at as argolas suspensas a 2,55 metros do cho pareciam saber que o chins Yibing Chen, dono de oito ttulos mundiais e que faturou trs medalhas de ouro em Pequim-2008, ganharia a prova. Todos tinham certeza da vitria de Chen, dolo na China, menos meia dzia de pessoas: Zanetti, seu tcnico Marcos Gotto e a entourage da ginstica masculina do Brasil. Acabou, cara!, disse Gotto, entre lgrimas, no momento em que Zanetti foi abra-lo. Sim, tinha acabado o pesadelo do fracasso que assombrava a ginstica brasileira e comeava ali uma nova era desse esporte no Brasil. Faltava uma medalha para quebrar a barreira e acabar com essa histria de que ns no vencemos, disse Zanetti  ISTO, num tom de voz to baixo que mal dava para escut-lo. E ganhar de um favorito  sempre melhor, d mais peso para o que voc fez.
 
Embora evitasse o tom revanchista, a delegao da ginstica brasileira estava mordida em Londres. Primeiro, a queda de Diego Hyplito, depois o fiasco das meninas e por fim as declaraes do prprio Yibing Chen, que disse que encerraria a carreira olmpica com a medalha de ouro, foram os combustveis que injetaram nimo no talento de Zanetti. Sei o que o Diego passou e ganhei essa medalha por ele tambm, afirma o novo rei das argolas. Mas no foi s isso. Dois fatores se revelaram decisivos para a conquista: o elemento surpresa e a preparao psicolgica. Zanetti foi medalha de prata, tambm nas argolas, no mundial de Tquio, em 2011, mas o que pouca gente sabia  que ele tinha escondido o jogo durante o torneio. Deixamos nossa nova rotina de movimentos para a Olimpada, diz o tcnico Gotto. Em sua primeira exibio em Londres, na fase classificatria, o brasileiro tambm no apresentou os seus melhores exerccios. Sabamos que, se o Zanetti repetisse certinho o que fazia nos treinos, teria chance de ouro, afirma Gotto.

LBUM - Da esq. para a dir., o boletim escolar, estripulias na rvore, no comeo das aulas de ginstica e j um pouco mais velho
 
Zanetti teve que se apresentar pouco tempo depois da enxurrada de crticas que caram sobre a ginstica. O verbo amarelar, que os atletas abominam, foi usado largamente, o que irritou a chefe da delegao brasileira, Berenice Arruda. Zanetti sabia que, se perdesse, a ladainha da tremedeira voltaria com fora. Eu estava muito forte psicologicamente. Ele atribui o equilbrio mental  psicloga Maria Cristina Miguel, contratada pela confederao, que o acompanhou em Londres. Nesse aspecto, o paulista tem um diferencial em relao a outros atletas. J ouvi o pessoal por a dizer que acha um saco falar com o psiclogo, mas eu gosto, diz o ginasta. Discutir o que passa na cabea da gente ajuda muito.
 
O jeito simples ele herdou da famlia de classe mdia de So Bernardo do Campo, na Grande So Paulo. Se Zanetti abrir um espacate  o que o faz ocupar um espao de 1,82 metro  no quarto que divide com o irmo Victor, trs anos mais velho, no vai ter espao para mais ningum. O cmodo do sobrado dos pais  muito pequeno. Nele, esto um beliche de ferro, onde os irmos dormem desde a infncia, um guarda-roupa, uma mesa, uma prancha de surfe, uma tev, medalhas, credenciais e um mural de fotos. Zanetti nasceu em So Caetano do Sul, mas cresceu no sobrado que fica em uma rua sem sada de So Bernardo. O garoto, cujo apelido  Tutu, sempre foi vigiado de perto. Na rua esto o comrcio de sucata do tio, Srgio Nabarrete, e a oficina de usinagem do pai, Archimedes Zanetti. O tio lembra que, certa vez, o Tutu conseguiu a proeza de ser expulso duas vezes de uma mesma festinha na casa de uma vizinha porque no dava sossego s pessoas. No Colgio Metodista, onde o ginasta estudou entre 1995 e 2002, as professoras no desgrudavam o olho do aluno. Ele no parava de virar cambalhota na escada, diz Kelly Toscano, coordenadora da educao infantil. Archimedes, o pai do ginasta, explicou  ISTO que ele jamais abriu mo de investir na educao e na sade dos filhos. Sempre pagamos colgio e um plano de sade aos meninos, diz.

MESTRES - Acima, Cludia, a primeira treinadora, j da Serc Santa Maria, e Srgio dos Santos, o professor de educao fsica que indicou aos pais de Zanetti a ginstica olmpica

O caula dos Zanetti no repetiu nenhum ano, mas brilhava mesmo nas aulas de educao fsica. Justamente em uma dessas aulas, ministradas pelo professor Srgio Oliveira dos Santos,  que o potencial do garoto como ginasta foi descoberto. Arthur era baixo, gil e tinha o tronco forte, lembra o professor. Ele foi responsvel pela matrcula da criana nas aulas de ginstica da Serc Santa Maria, em So Caetano. O garoto tinha s 7 anos e era a av Neide Thomazzo, hoje com 74 anos, que o levava aos treinos. Arthur servia como minha cobaia para eu mostrar como queria que os movimentos fossem feitos, diz Cludia Cobo, primeira treinadora do ginasta. A famlia Zanetti  atuante no clube de So Caetano do Sul. A me  presidente da associao de scios e o pai constri aparelhos educativos usados nas aulas  chegou a fazer um cavalo com ala e argolas para o filho. No foi fcil a trajetria rumo ao topo. Na Serc, muita coisa funciona no improviso. Alm da falta de estrutura, Zanetti sofreu com a presso por ser um atleta de alto nvel. Em 2005, teve uma crise de estresse e ameaou abandonar o esporte. O Arthur disse que no queria mais treinar e ficou longe daqui por um ms, lembra Marcelo Arajo, auxiliar-tcnico de Groto. Ele retornou, contratamos uma psicloga e, desde ento, tudo mudou. Sorte da ginstica brasileira.
